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06/10/2004 21:15
ele era um espírito muito velho
ele era velho, apesar de novo.
queria muito viver, apesar de sofrer.
não queria sofrer, apesar de querer doer.
ele era muito velho, apesar de muito novo.
tentava mais do que sobreviver, apesar de mais sofrer.
não nos queria sofrer, apesar.
se realmente já estava aqui há muito tempo, talvez não seja esta sua partida. seus velhos olhos continuarão a velar em novo corpo e
seus velhos órgãos continuarão viver no velho corpo.
e apesar disso tudo, vai continuar. não é agora que vai, muito menos que fica. que vá. que não sofra. que sorria. que não chore.
e que siga por muitos túneis.
filosofia dos que ficam enquanto os que vão não vão com os que não vão: continuemos aqui
enviada por ocachorroverde
25/04/2004 13:24
narrativas do tédio ii - vingança (primeiro pedaço)
ato 25: (abrem-se as cortinas: é um quintal, grama, alguns baldes, muro esverdeado de tijolos vermelhos de ponta a ponta. pelo muro mato alto, descaso dos proprietários vizinhos, solidão, ostracismo. no jardim, digo, quintal, um homem de princípios, digo, de manias, uma pá, um buraco, um monte de terra, uma muda. tapa o buraco, joga a pá na pequena moita, morta, que balança)
- pronto. é isso.
ato 1: (fecham-se as cortinas, descem janelas e porta e parede e telhado. pessoas caminhando, vivendo , passando, indo, vindo, morrendo, xeretando)
- mamãe, quero sair. os meninos estão todos brincando na rua. eu quero!
- não. e não.
- mas por que?
- porque eles não querem brincar com você.
ato 13: pessoa bate a porta. senhora atende - viuva, o marido morreu, ó pleonasmo. o bebê devidamente escondido. vergonha. "e como vai você?" diz pessoa. "vou bem, me recuperando, sabe como é. sim sei. é dose perder um filho, e agora meu marido. pois é, é complicado. cumplicidade. o bebê chora, pede leite, carinho, atenção, vozes, olhares. mas as portas do armário são muito grossas não olham, não falam, não atendem, não acarinham, não dão leite, não secam lágrimas. édipo. com raiva. bondade não é para mim - um dia ainda vai dizer. o que vão dizer?
ato 87: criança-abajur, escondida
criança-monstro, caçada
criança-vergonha, negada
criança-poeira, varrida
criança-timidez.
criança-cabide, pendurada
criança-aberração, perseguida
criança-repulsa, isolada
criança-sujeira, varrida
criança-inocência.
pobre criança.
enviada por ocachorroverde
09/04/2004 20:09
narrativas do tédio i
ato 5: uma forma; bola, digo. muitas cores; todas, digo. surpresa seguida da satisfação, seguindo o desejo. desejo seguindo
ato 2: "é um quarto retangular, armários embutidos cor-de-verniz cor-de-madeira. bancada de estudos, computador, armário para o som, que pode ficar guardado ao lado, no porta-discos. azul", e nada produtivo
ato 37: (daqui debaixo fico a imaginar com está a vida aí em cima. ouço os barulhos, oferendas, descasos, lamentos, pedidos. por que se sabem de nossa impotência e falta de recursos?) me desculpe senhor, nada posso fazer, agradeço a compreensão, são os transtornos do sistema... (como o quê?)
ato 18: -ouçam bem! não há norma a ser seguida mais rígida que a de não seguir normas. e a proibição que proíbe fica proibida por sua própria poribição.
-então não há regras?
-há o que quiserem
ato 13: silêncio. tudo quieto. "acho que não vai dar, acho que não."
"vai, olhe só"
enviada por ocachorroverde
21/02/2004 08:50
...
e só.
filosofia de estrada: é...
enviada por ocachorroverde
17/12/2003 18:36
se existíssemos não existiríamos
essa é a conclusão calvina.
marco e kublai conversando num belo jardim. os dois existem, e todos os outros (serventes e afins) são produtos imaginários, logo não existem. mas se não existem, os dois acima não existiriam. então para que os outros existam, eles não devem existir.
logo, se os dois existem, eles não existem. eis-los ali.
então estou aqui. e logo não estarei mais. e isso é porque eu existo ou porque eu não existo.
se eu existo tudo existe?
se eu não existo nada existe?
eu sou tudo?
eu sou nada?
tudo são os outros?
os outros são nada?
ou é aquele jardim que tinha opiáceos demais e ninguém foi lá avisá-los?
acho que sim. a minha conclusão é que vou sair, viajar. volto quando der. ou sempre ficarei aqui sem saber que não saí. a todos, meus sinceros abraços. bons dias finais de recomeço - afinal, todo recomeço acaba por findar-se.
filosofia de estrada para quem não sabe o que é: seja rato ou andorinha, um morto ou um vivo, alterne papéis, caminhe sem parar, se perca, se ache, se vá e nunca saia, se sobreponha, cresça, inche, mas não pense ser algo que não é - principalmente quando se é aquilo que se pensa acha vê que nunca não foi. sejam
enviada por ocachorroverde
30/11/2003 19:50
pouco tempo, há muito tempo atrás
faz tempo. sim, faz tempo que não passo aqui, é não porque passei a ir por lá.
ultimamente não passo.talvez isso seja bom, esse negócio de viver o dia recebende descargas elétricas a menos de um metro de distância não deve ser muito saudável.
enfim. cá estou. logo me vou. mas ainda estou. só.
filosofia de estrada e nada mais: enfim, chegamos ao fim. e logo um novo começo. infindável.
enviada por ocachorroverde
20/11/2003 16:04
mamãe já chegou
um telefone escuro, de rostos felizes claros. é claro, tudo contraste.
alô! filho exclamou e depois afirmou mamãe já chegou. isso, eu também te amo o filho deve amá-la. e se seu pai ligar, fala pra ele ligar pra mamãe ordenou delicadamente, pedindo ordenadamente.
e seguiu no ônibus, insegura de si: daí a pergunta onde fica tal lugar? (é longe bem longe e você está perto do caminho do certo.) mas como não sabia onde ir? como não sabia o tal lugar, como eu também não.
[acaba por aqui a narrativa. talvez nem começou. e daí? aposto que ela nunca chegou, mentirosa, como alguém assim podem amar? é como disse à mãe a filha pequena.]
filosofia de estrada, plataforma 50, poltrona 23 corredor: senta no meu colo neném, senta, senta no colinho da mamãe
mães não devem estar
enviada por ocachorroverde
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